Ministério Público de SC conclui que cão Orelha morreu por doença grave, não por agressão, e pede arquivamento do caso
O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) protocolou na Justiça, na última sexta-feira (8), um pedido de arquivamento do caso que investigava a morte do cão comunitário Orelha, ocorrida em janeiro deste ano na Praia Brava, em Florianópolis. A conclusão, baseada na análise de cerca de 2 mil documentos, imagens de câmeras de segurança e laudos periciais, aponta que o animal não foi vítima de maus-tratos, mas sim de uma doença grave pré‑existente.
A investigação inicial da Polícia Civil havia indicado que quatro adolescentes teriam agredido Orelha e outro cão, Caramelo. Posteriormente, apenas um jovem passou a ser apontado como autor das agressões contra Orelha, enquanto outro grupo foi responsabilizado por tentativa de afogamento de Caramelo. A polícia chegou a pedir a internação do suposto agressor e indiciou três adultos por coação a testemunhas. Os nomes não foram divulgados.
No entanto, ao reexaminar o material probatório, o MP-SC identificou inconsistências temporais que desmontaram a versão inicial. A análise de câmeras de monitoramento do condomínio onde o adolescente mora e de registros do sistema público de segurança de Florianópolis revelou uma defasagem de aproximadamente 30 minutos entre os dispositivos. Enquanto o jovem foi filmado próximo ao deck da praia, Orelha estava a cerca de 600 metros de distância. “Dessa forma, não se sustenta a tese de que ambos tenham compartilhado o mesmo espaço por aproximadamente 40 minutos”, afirmaram os promotores.
Imagens do cão comunitário caminhando normalmente cerca de uma hora após a suposta agressão também contradizem a hipótese de que ele teria voltado debilitado por maus‑tratos recentes. Além disso, o laudo pericial obtido com a exumação do corpo de Orelha não constatou “qualquer fratura ou lesão compatível com ação humana”. O exame identificou, no entanto, sinais de osteomielite na região maxilar esquerda, uma infecção óssea crônica. “As imagens do crânio demonstram uma lesão profunda e antiga, com perda de pelos, descamação e inflamação compatíveis com infecção de evolução prolongada”, diz o MP‑SC. O animal apresentava apenas um inchaço acentuado na cabeça, sem cortes ou fraturas.
Diante do conjunto de provas, a promotoria concluiu que Orelha sucumbiu a um quadro clínico grave, não a agressões. Também destacou a completa ausência de imagens ou testemunhas presenciais que confirmassem os maus‑tratos, apontando que a versão surgiu de boatos e publicações em redes sociais, o que gerou uma “fixação precoce e equivocada de autoria”.
Caso do cão Caramelo e inquérito por coação
As investigações sobre o cão Caramelo também descartaram maus‑tratos. A polícia concluiu que os adolescentes apenas brincavam com o animal na praia, sem tentativa de afogamento. Imagens de monitoramento afastaram a suspeita de que o cão teria sido arremessado para dentro de um condomínio, mostrando que os jovens apenas o conduziram ao local.
A Justiça ainda arquivou o inquérito que apurava suposta coação no processo envolvendo familiares dos adolescentes. Segundo o MP‑SC, as ocorrências registradas em janeiro de 2026 referiam‑se a desentendimentos entre adolescentes e um porteiro de condomínio, sem relação com a investigação da morte de Orelha. Não houve ameaça ou violência com o objetivo de interferir na apuração judicial ou policial. O episódio foi considerado isolado.