Sayonara Doraci da Silva sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em fevereiro deste ano, em Apucarana, no norte do Paraná. Mais de um mês depois do crime, o ex-companheiro dela, Ademar Augusto Crepe, permanece foragido. Neste período, a vítima se formou em Administração na Universidade Estadual do Paraná (Unespar).
Escondida para se manter em segurança, Sayonara não pôde receber o diploma de forma presencial durante a cerimônia de formatura, mas se fez presente por meio de uma carta lida pela professora Carine Maria Senger.
No texto, Sayonara lamenta a ausência e relata que o ex-companheiro não foi mais localizado desde a data do crime, 10 de fevereiro. Ela também recorda que, mesmo sob o medo causado pela violência, venceu a faculdade.
“Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver”, escreveu.
A professora Carine recebeu o texto algumas horas antes da cerimônia, que aconteceu no dia 27 de fevereiro, e descreveu um “sentimento contraditório”: tristeza pela ausência da aluna e honra por poder representá-la. “Inclusive cheguei a pensar que talvez não conseguisse fazer a leitura durante a cerimônia. Foi um momento de muita emoção”, disse ao g1.
A Unespar publicou nota de apoio a Sayonara, destacando que a mulher rompeu um ciclo de violência e buscou, “por meio da educação, a construção de um projeto de vida autônomo”.
Leia a íntegra da carta de Sayonara:
“Gostaria muito que estas palavras fossem ditas por mim, olhando nos olhos de cada colega, professor e familiar. Mas hoje, minha voz chega até vocês através deste papel, porque a minha presença física me foi roubada.
Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça. Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha livre. Minha ausência nesta festa não é uma escolha, é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade.
Mas quero que saibam: ele não venceu.
Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não parei. Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver.
Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que o meu lugar vazio hoje – representado pela professora Carine – sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva.
Eu venci a faculdade.
Eu venci o silêncio.
E, junto com meus filhos, continuarei vencendo todos os dias.
O meu corpo não está aí, mas a minha conquista é gigante – e ninguém pode tirá-la de mim.
Estudar não é rebeldia.
Estudar é um ato de resistência.
Viva a universidade pública.
Viva a UNESPAR.”
Com informações de G1.















