Menos estrangeiros vai ajudar o futebol brasileiro ou apenas criar mercado para empresários?

A CBF, com o aval dos clubes e também a concordância do técnico da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, decidiu reduzir gradualmente o número de estrangeiros que poderão ser relacionados nas partidas do Campeonato Brasileiro.
O argumento é conhecido: abrir mais espaço para os jogadores brasileiros, especialmente os jovens formados nas categorias de base.
A pergunta é outra: isso necessariamente vai melhorar o futebol brasileiro?
Hoje, os clubes da Série A podem relacionar até nove estrangeiros por partida. A partir de 2027, esse número começa a cair até chegar a cinco em 2030.
A justificativa parece bonita no papel. Mais brasileiros em campo, mais oportunidades para a base e, consequentemente, mais jogadores sendo formados.
Mas existe um problema nessa conta.
E se o campeonato ficar pior?
O futebol não melhora simplesmente porque você tira jogadores estrangeiros do caminho.
Muitos dos atletas que chegaram ao Brasil nos últimos anos elevaram o nível técnico dos nossos clubes. Alguns são titulares, outros disputam posição e vários estão entre os principais jogadores de suas equipes.
Se eles forem obrigados a ficar fora da relação por causa de uma limitação artificial, o que acontece?
O jogador brasileiro vai precisar disputar a posição com menos concorrência.
E aqui está o ponto chave.
Ele terá conquistado a vaga ou simplesmente terá recebido a vaga porque alguém decidiu que o concorrente não poderia estar no banco?
Existe uma diferença enorme entre formar um jogador e simplesmente colocá-lo para jogar.
O risco de nivelar por baixo
O Campeonato Brasileiro construiu nos últimos anos uma característica que considero extremamente positiva: tornou-se um mercado capaz de atrair jogadores de diferentes países.
Argentinos, uruguaios, colombianos, paraguaios, equatorianos e atletas de outras nacionalidades passaram a enxergar o Brasil como destino esportivo.
Isso aumenta a concorrência, traz estilos diferentes, eleva a exigência dos brasileiros e, em muitos casos, melhora o espetáculo.
Se a solução para aumentar o espaço dos jovens brasileiros for diminuir a qualidade da concorrência, estamos atacando o problema pelo lado errado.
Imagine um garoto de 20 anos disputando posição com um estrangeiro experiente.
Se ele ganhar a posição porque foi melhor, ótimo.
Agora, se ganhar porque o estrangeiro sequer pode ser relacionado, não necessariamente estamos formando um jogador melhor. Estamos apenas criando uma oportunidade por decreto.
E os rivais sul-americanos?
Existe ainda outra questão pouco discutida.
Enquanto o Brasil reduz a presença de estrangeiros, outros mercados sul-americanos podem se tornar ainda mais atrativos para esses jogadores.
O atleta que não encontrar espaço aqui pode procurar Argentina, Uruguai, Equador, Paraguai ou outros campeonatos.
E alguns desses jogadores que hoje atuam no Brasil podem simplesmente reforçar nossos concorrentes continentais.
Ou seja: podemos retirar qualidade do Campeonato Brasileiro e, ao mesmo tempo, ajudar a fortalecer clubes que depois teremos de enfrentar na Libertadores e em outras competições.
É uma consequência que deveria estar na conta.
A questão dos empresários
Também não dá para ignorar o aspecto econômico.
Quanto mais vagas forem abertas obrigatoriamente para jogadores brasileiros, maior será o mercado disponível para atletas, empresários e agentes.
Isso, por si só, não significa que exista uma articulação para beneficiar empresários.
Mas é uma pergunta legítima para quem acompanha o futebol: a prioridade é realmente formar jogadores melhores ou simplesmente aumentar o espaço disponível para jogadores brasileiros?
Porque são coisas diferentes.
Se a preocupação é a formação, então precisamos discutir categorias de base, estrutura, preparação física, formação tática, calendário, transição para o profissional e, principalmente, por que tantos jogadores brasileiros chegam aos 20 e poucos anos sem conseguir se firmar.
Limitar estrangeiros não resolve automaticamente nenhum desses problemas.
O jogador brasileiro precisa de oportunidade, mas também de cobrança
Sou totalmente favorável a que o futebol brasileiro revele e aproveite seus próprios talentos.
O Brasil sempre teve uma das maiores fábricas de jogadores do mundo.
Mas oportunidade não pode significar privilégio.
O garoto precisa entrar porque está preparado, porque merece jogar e porque consegue competir em alto nível.
Se o estrangeiro é melhor, que jogue o estrangeiro.
Se o brasileiro é melhor, que jogue o brasileiro.
Essa deveria ser a lógica mais simples do futebol.
A Seleção Brasileira não precisa de jogadores protegidos por regulamento. Precisa de jogadores que tenham sido suficientemente exigidos para competir contra os melhores.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior contradição dessa nova regra.
Se queremos voltar a ter os melhores jogadores do mundo, não deveríamos diminuir a concorrência dentro de casa. Deveríamos aumentar a exigência.
Porque, no futebol, vaga conquistada vale muito mais do que vaga garantida.
