Menos estrangeiros vai ajudar o futebol brasileiro ou apenas criar mercado para empresários?

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Foto: Marcos Ribolli

A CBF, com o aval dos clubes e também a concordância do técnico da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, decidiu reduzir gradualmente o número de estrangeiros que poderão ser relacionados nas partidas do Campeonato Brasileiro.

O argumento é conhecido: abrir mais espaço para os jogadores brasileiros, especialmente os jovens formados nas categorias de base.

A pergunta é outra: isso necessariamente vai melhorar o futebol brasileiro?

Hoje, os clubes da Série A podem relacionar até nove estrangeiros por partida. A partir de 2027, esse número começa a cair até chegar a cinco em 2030.

A justificativa parece bonita no papel. Mais brasileiros em campo, mais oportunidades para a base e, consequentemente, mais jogadores sendo formados.

Mas existe um problema nessa conta.

E se o campeonato ficar pior?

O futebol não melhora simplesmente porque você tira jogadores estrangeiros do caminho.

Muitos dos atletas que chegaram ao Brasil nos últimos anos elevaram o nível técnico dos nossos clubes. Alguns são titulares, outros disputam posição e vários estão entre os principais jogadores de suas equipes.

Se eles forem obrigados a ficar fora da relação por causa de uma limitação artificial, o que acontece?

O jogador brasileiro vai precisar disputar a posição com menos concorrência.

E aqui está o ponto chave.

Ele terá conquistado a vaga ou simplesmente terá recebido a vaga porque alguém decidiu que o concorrente não poderia estar no banco?

Existe uma diferença enorme entre formar um jogador e simplesmente colocá-lo para jogar.

O risco de nivelar por baixo

O Campeonato Brasileiro construiu nos últimos anos uma característica que considero extremamente positiva: tornou-se um mercado capaz de atrair jogadores de diferentes países.

Argentinos, uruguaios, colombianos, paraguaios, equatorianos e atletas de outras nacionalidades passaram a enxergar o Brasil como destino esportivo.

Isso aumenta a concorrência, traz estilos diferentes, eleva a exigência dos brasileiros e, em muitos casos, melhora o espetáculo.

Se a solução para aumentar o espaço dos jovens brasileiros for diminuir a qualidade da concorrência, estamos atacando o problema pelo lado errado.

Imagine um garoto de 20 anos disputando posição com um estrangeiro experiente.

Se ele ganhar a posição porque foi melhor, ótimo.

Agora, se ganhar porque o estrangeiro sequer pode ser relacionado, não necessariamente estamos formando um jogador melhor. Estamos apenas criando uma oportunidade por decreto.

E os rivais sul-americanos?

Existe ainda outra questão pouco discutida.

Enquanto o Brasil reduz a presença de estrangeiros, outros mercados sul-americanos podem se tornar ainda mais atrativos para esses jogadores.

O atleta que não encontrar espaço aqui pode procurar Argentina, Uruguai, Equador, Paraguai ou outros campeonatos.

E alguns desses jogadores que hoje atuam no Brasil podem simplesmente reforçar nossos concorrentes continentais.

Ou seja: podemos retirar qualidade do Campeonato Brasileiro e, ao mesmo tempo, ajudar a fortalecer clubes que depois teremos de enfrentar na Libertadores e em outras competições.

É uma consequência que deveria estar na conta.

A questão dos empresários

Também não dá para ignorar o aspecto econômico.

Quanto mais vagas forem abertas obrigatoriamente para jogadores brasileiros, maior será o mercado disponível para atletas, empresários e agentes.

Isso, por si só, não significa que exista uma articulação para beneficiar empresários.

Mas é uma pergunta legítima para quem acompanha o futebol: a prioridade é realmente formar jogadores melhores ou simplesmente aumentar o espaço disponível para jogadores brasileiros?

Porque são coisas diferentes.

Se a preocupação é a formação, então precisamos discutir categorias de base, estrutura, preparação física, formação tática, calendário, transição para o profissional e, principalmente, por que tantos jogadores brasileiros chegam aos 20 e poucos anos sem conseguir se firmar.

Limitar estrangeiros não resolve automaticamente nenhum desses problemas.

O jogador brasileiro precisa de oportunidade, mas também de cobrança

Sou totalmente favorável a que o futebol brasileiro revele e aproveite seus próprios talentos.

O Brasil sempre teve uma das maiores fábricas de jogadores do mundo.

Mas oportunidade não pode significar privilégio.

O garoto precisa entrar porque está preparado, porque merece jogar e porque consegue competir em alto nível.

Se o estrangeiro é melhor, que jogue o estrangeiro.

Se o brasileiro é melhor, que jogue o brasileiro.

Essa deveria ser a lógica mais simples do futebol.

A Seleção Brasileira não precisa de jogadores protegidos por regulamento. Precisa de jogadores que tenham sido suficientemente exigidos para competir contra os melhores.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior contradição dessa nova regra.

Se queremos voltar a ter os melhores jogadores do mundo, não deveríamos diminuir a concorrência dentro de casa. Deveríamos aumentar a exigência.

Porque, no futebol, vaga conquistada vale muito mais do que vaga garantida.

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