PMs são condenados por tortura após câmeras flagrarem ‘roleta-russa’ com adolescentes em São Paulo
Dois policiais militares foram condenados pela Justiça Militar depois que imagens de câmeras corporais flagraram agressões, ameaças e uma “roleta-russa” contra dois adolescentes durante uma operação na Favela da Caixa D’Água, na Zona Leste de São Paulo. As gravações, feitas em fevereiro do ano passado, também mostram invasões a casas sem mandado judicial e o desaparecimento de drogas apreendidas.
O sargento Amauri dos Santos foi condenado a 12 anos e 5 meses de prisão por tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato. O cabo Sandro Nascimento pegou 4 anos e 10 meses por tortura e abuso de autoridade. Outros seis policiais, incluindo o soldado Eduardo Uchoa, ainda aguardam julgamento.
O que mostram as imagens
As câmeras registraram o momento em que Sandro segura um adolescente pelo pescoço e pela camiseta, enquanto Uchoa dá um tapa no rosto do jovem. Em seguida, Sandro aponta uma pistola para a cabeça do rapaz, que não reage. Os policiais também abordam outro adolescente, e Sandro encosta a arma no olho dele.
Minutos depois, o sargento Amauri chega ao local. Pelas imagens, é possível vê-lo batendo em um dos garotos com uma vara. Em seguida, ele pede para Uchoa virar de costas para a própria câmera, coloca uma única bala no tambor vazio de um revólver, gira o cilindro e aponta a arma para a cabeça de um dos adolescentes. Amauri aperta o gatilho, mas o disparo não acontece.
“A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima”, afirmou a promotora de Justiça Militar Giovana Ortolano Guerreiro.
Depois disso, Amauri coloca a arma no rosto e no pescoço do adolescente. Pela própria câmera do sargento, é possível ver que Uchoa presencia a ação, não interfere e ainda ri. Em outro momento, Amauri empurra a cabeça do segundo garoto com força contra uma parede.
Invasões e desaparecimento de drogas
As imagens mostram ainda que Amauri obstruiu a câmera corporal. Quando a gravação volta, quatro minutos depois, os policiais obrigam os adolescentes a circular pela favela e entram em várias casas sem mandado judicial. Em uma delas, encontram galões, recipientes usados como pinos de cocaína e pacotes aparentemente cheios de drogas.
Parte do material foi colocada em uma caixa, e o restante foi levado em uma mochila e um saco preto até a viatura do sargento. Segundo a investigação, o material apreendido desapareceu. Para a promotora, a entrada nas casas foi irregular e há indícios de desvio das drogas.
“Foi uma ação irregular. Eles não poderiam adentrar imóveis aleatoriamente da forma como fizeram”, afirmou Giovana.
O que disseram os policiais
Durante o processo, Sandro afirmou que encostou a arma no rosto do adolescente porque se desequilibrou. Amauri disse que o revólver usado na roleta russa era de plástico, que a munição era apenas uma cápsula de sabão e que o material recolhido nas casas era lixo descartado posteriormente.
A defesa de Sandro sustentou que a conduta do cabo configurava apenas uma transgressão disciplinar, tese rejeitada pela Justiça. A defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do soldado. A defesa de Amauri não se manifestou.
As imagens foram encontradas durante uma auditoria de rotina das câmeras corporais. A Corregedoria da PM investigou o caso e prendeu Amauri e Sandro. Quase toda a ação foi registrada porque as câmeras operavam no modo Recall, que gravava continuamente, sem áudio e em baixa qualidade, mesmo sem acionamento do policial. Esse sistema já foi substituído pela corporação.
A Polícia Militar informou que ampliou o programa de câmeras em 50%, para 15 mil equipamentos, e que acompanha o funcionamento da tecnologia para aprimorar a transparência e a segurança das intervenções.
Com informações de G1.
